9.8.16

"Sobre Turismo Cemiterial" na Revista Elegia

No número 4 da revista Elegia (revista semestral da AAFC Associação de Agentes Funerários do Centro) podem ler o meu artigo "Sobre Turismo Cemiterial", no qual desenvolvo esta temática, ilustrando-a com fotografias minhas de vários cemitérios europeus que visitei.
Para além do artigo, podem ainda encontrar várias referências ao blog Mort Safe.



A revista Elegia é uma publicação semestral dedicada ao sector funerário, com uma diversidade de colaborações que permite extravasar o público-alvo inicial e ser do interesse do leitor comum e, especialmente, do leitor tafófilo. 
Os números têm sido subordinados a temáticas específicas, organizadas em dossiers, cobrindo os mais variados temas; até agora foi publicado um dossier sobre Cremação (n.º1), sobre Transportes Funerários (n.º2) e sobre Cerimónia Fúnebre, Crenças e Rituais (n.º3).



18.6.16

Cemitério de Montjuïc

Panteón Augusto Urrutia i Roldán
No passado mês de Maio tive a fantástica oportunidade de passear entre as campas, gavetas e mausoléus (na Catalunha chamam-lhes panteões) dos cemitérios de Montjuïc e Poublenou.
As peças são fantásticas, gigantescas, assombrosas e todo o tempo é sempre pouco para visitar (e fotografar um sitio assim).

Montjuïc tem uma dimensão assustadora, correndo monte acima e estendendo-se verdadeiramente até se perder de vista.
A inumação é praticamente toda feita com recurso a gavetas, em paredes altas, decoradas com pequenas pedras que foram retiradas do próprio espaço agora ocupado pelo cemitério, de tonalidade amarelada. 
As pequenas portas. de metal ou de pedra, decoradas com inscrições e desenhos enchem-se de flores, deixadas pelos familiares com recurso a enormes escadas móveis em metal.
As ruas deste cemitério do século XIX - inaugurado a 17 de Março de 1883 - vão-se estendendo monte acima, começando no sopé quase sobre as águas do porto comercial de Barcelona. Sobre o cemitério, enormes e ameaçadoras gaivotas vão esvoaçando e soltando gritos, agressivas por sentirem que estamos a invadir o seu espaço.
Por entre os ciprestes e as cruzes, conseguimos vislumbrar os contentores metálicos coloridos, acabados de chegar do mar ou prontos para partir, e as enormes gruas que os movimentam. É um contraste muito realista, que sobrepõe a Morte e a Vida numa única imagem, num único instante.

O cemitério de Montjuïc nasceu para ser o Monumento dos Monumentos, numa altura em que era possível sonhar ainda com a riqueza que enchia os cofres de Barcelona. 
Os planos arquitectónicos da época mostram um detalhe e cuidado verdadeiramente grandiosos, mas foi necessário simplificar e atalhar caminho. Os restantes cemitérios não conseguiam dar resposta às necessidade da metrópole e, ao mesmo tempo, a crise financeira impedia a construção inicialmente planeada.
Ainda assim, acreditem, o espaço é de tirar a respiração.
A visita mais interessante é, como sempre em todos estes locais, às zonas mais antigas que, felizmente neste caso, são as mais baixas.
Panteón Buhigas
A perspectiva turístico-cultural do espaço está sempre presente e, para além das brochuras com mapas que são distribuídas gratuitamente na entrada dos cemitérios é também possível adquirir livros informativos muito bons e que permitem perceber a história do local, o contexto social e económico em que foi construído e quem são as pessoas que aí estão enterradas e que construíram os seus monumentos, com grande destaque para a arte em si: quem fez, em que estilo se enquadra, etc.
Existe um percurso artístico recomendado, onde junto de cada peça se pode encontrar uma placa com informação detalhada.

É muito fácil e reconfortante ser tafófilo num cemitério de Barcelona.


PS: com este post não posso deixar de agradecer a Tony Collbató e Juanjo Macias a forma calorosa como me receberam em Barcelona: sem eles, a minha experiência não tinha sido tão rica, tão cheia, tão mágica: Gràcies, amics!
O meu agradecimento também aos Cementiris de Barcelona por toda a disponibilidade e por tratarem tão bem dos seus espaço e dos seus visitantes. Que inveja, que orgulho.

É uma felicidade perceber que a comunidade tafófila não tem fronteiras para os afectos.

Para quem tem facebook, não esquecer de aderir ao grupo Apoyamos la Ruta Europea de Cementerios.

15.3.15

Monumentos Memoráveis: Thérèse Schwartze

Nos arredores de Amesterdão fica o cemitério De Nieuwe Ooster (O Novo Oriente), considerado o cemitério holandês com maior número de campas.

É um cemitério completamente diferente de todos os que já visitei: cada campa é um monumento independente, livre, sem obrigações legais ou linhas de orientação camarária; pelo menos, foi isso que retive, depois de um passeio pelo espaço.
Construído em três fases distintas (1889, 1915 e 1928), é um verdadeiro cemitério-jardim de tradição vitoriana, com caminhos ondulantes, perdidos entre árvores e arbustos. Neste momento, funciona ainda como Jardim Botânico.

Entre campas feitas de madeira, vidro colorido, metal ou pedra, encontramos, numa curva do jardim quase escondido pela folhagem verde em volta, um túmulo digno de uma princesa das histórias dos Irmãos Grimm: é a campa da pintora Thérèse Schwartze (Α:1851 - Ω:1918).
Tendo nascido em 1851 e pintado toda a vida, aprendendo as primeiras técnicas com o pai - também pintor -, mas passando por Paris, Munique e acabando por se estabelecer em Amesterdão, os seus trabalhos mais destacados são retratos, maioritariamente das figuras cosmopolitas mais eminentes do seu tempo.
É assim que ela está apresentada no túmulo: Therese van Duyl-Schwartze - Pintora de Retratos.
Em 1918, na sequência da morte do marido, a artista não resistiu ao choque e à doença que já a enfraquecia e morreu, com a idade de 61 anos.
Inicialmente, foi enterrada no famoso cemitério holandês de Zorgvlied, mas mais tarde transladada para De Nieuwe Ooster.
A sua irmã Georgine - uma escultora famosa - fez-lhe o monumento funerário, usando uma máscara mortuária como base para o rosto. 


O monumento é lindíssimo e a colocação é perfeita. A minha peça favorita do cemitério de De Nieuwe Ooster. 


18.1.15

Vídeo "Da Pedra aos Ossos: Observação do Limiar da Infinitude"

A inauguração da exposição de fotografia Da Pedra aos Ossos: Observação do Limiar da Infinitude ocorreu ontem, dia 16 de Janeiro, na galeria de arte do Palácio dos Aciprestes, sede da Fundação Marquês de Pombal.
Numa sala cheia, reunida para a primeira sessão do ciclo de palestras sobre terror Sustos às Sextas, foi feita uma breve apresentação, seguida de uma visita à exposição. 
Até final de Janeiro podem ainda (re)visitar o espaço, em preparação para a próxima palestra dos Sustos às Sextas, dia 13 de Fevereiro.

Para quem esteve presente, o vídeo que se segue é um complemento; para quem não foi ainda ao Palácio dos Aciprestes, serve de teaser.





14.12.14

Da Pedra aos Ossos: Observação do Limiar da Infinitude

No dia 16 de Janeiro de 2015 será a inauguração da minha nova exposição de fotografia, de temática tafófila: Da Pedra aos Ossos: Observação do Limiar da Infinitude.
Em dezanove imagens a preto-e-branco, explora-se os limites entre a pedra esculpida e o osso humano, através de caveiras - o speculum mortis por excelência - recordando ao Homem a sua efemeridade.


A exposição será no Palácio dos Aciprestes da Fundação Marquês de Pombal, em Linda-a-Velha, integrada no programa do ciclo de palestras de terror Sustos às Sextas.

16.11.14

Inauguração de "Oraculum Mortuum: Um Tarot Tumular"

No passado dia 15 de Novembro, na El Pep Store & Gallery do Centro Comercial Imaviz Underground, decorreu a inauguração da exposição fotográfica Oraculum Mortuum: Um Tarot Tumular.
Contou com a participação musical de Charles Sangnoir de La Chanson Noire.
Apresentei as vinte e duas fotografias que compõem a série, contextualizando a imagem, a escolha e o local onde a fotografia foi tirada.

Para quem não conseguiu estar presente, pode ver o vídeo da minha apresentação dos vinte e dois Arcanos Maiores cemiteriais:




Mais surpresas em breve.

4.11.14

Oraculum Mortuum: Um Tarot Tumular


No próximo dia 15 de Novembro, na El Pep Store & Gallery no Imaviz Underground, pelas 18:00 horas, vai ser inaugurada a minha exposição de fotografia, intitulada "Oraculum Mortuum: Um Tarot Tumular" um trabalho conceptual sobre o Tarot.
Em vinte e duas imagens de contexto sepulcral, a preto-e-branco, tiradas em diversos cemitérios portugueses e estrangeiros, apresentam-se novos arcanos maiores que, mergulhados no mistério e no silêncio próprios dos cemitérios, prosseguem num feitio surpreendente a tradição pictórica do Tarot.
A exposição estará patente até 28 de Novembro e estão todos convidados, desde já, a aparecer na abertura no dia 15.

Entretanto, estamos a preparar mais algumas surpresas que iremos anunciando. Fiquem atentos!

6.9.14

Os Sete Magníficos: Highgate

Há um conjunto de cemitérios cuja visita é obrigatória para qualquer tafófilo. 
Se ir a Paris sem visitar Père Lachaise é criminoso, não menos criminoso é ir a Londres e não visitar o cemitério de Highgate.

Highgate Oeste - Círculo do Líbano
Highgate é tudo o que as descrições prometem: gigantesco, majestoso, clássico, envelhecido, cheio de monumentos de granito perdidos entre a vegetação quase selvagem, vagamente aparada para permitir acesso aos principais monumentos.
Todo o aficionado de cemitérios já ouviu descrever a Avenida Egípcia, as Catacumbas e o famoso Círculo do Líbano, com o seu enorme cedro no centro, mas posso garantir que ao vivo o impacto é outro. 
Para quem visita o espaço é óbvio o motivo pelo qual Highgate é o mais famoso e importante dos sete cemitérios que rodeiam Londres, conhecidos por Sete Magníficos (mesmo sem possuírem a diversidade ou a qualidade superior de monumentos que pode ser encontrada em Kensal Green, por exemplo).
Londres inicia o século XIX com um problema grave de falta de espaço e condições deficientes de higiene para continuar a enterrar os seus mortos dentro da cidade. 
Com um aumento da população para mais do dobro em apenas quarenta anos (de cerca de novecentos e sessenta mil em 1801 para cerca de dois milhões em 1841), resultante da necessidade de mão-de-obra criada pela Revolução Industrial, Londres deixa de ter capacidade para continuar a fazer enterros nos antigos cemitérios, dentro e em redor das igrejas.

Highgate Oeste - Avenida Egípcia
Em 1836, o Parlamento decide ser necessária a construção de cemitérios extramuros - à semelhança do que tinha já acontecido em Paris e estava a acontecer um pouco por toda a Europa, pelos mesmo motivos - a norte, a sul e a este da cidade. Esses cemitérios seriam da responsabilidade de uma entidade privada, designada por London Cemetery Company.
A Norte de Londres, a empresa comprou os terrenos do lado Oeste da, agora famosa, Swain's Lane por três mil e quinhentas libras e entregou o projecto de jardinagem a David Ramsay que, seguindo a visão do arquitecto Stephen Geary, criou aquele que ainda é um dos mais bonitos cemitérios do mundo. 
Highgate seria inaugurado em 1839, com o enterro de Elizabeth Jackson, a 26 de Maio. Alguns anos depois a London Cemetery Company viu-se na necessidade de estender o cemitério, considerando a procura que os primeiros vinte hectares tiveram. A única hipótese para estender Highgate eram os terrenos a este de Swain's Lane; em 1854, Highgate Este abria as portas, passando assim a existir também um Highgate Oeste.

Highgate Oeste - Catacumbas no Círculo do Líbano
O cemitério, apesar de ser único, viu-se atravessado por uma estrada ou seja, uma linha de terreno não consagrado. 
Highgate Este
Este facto pode não parecer ter importância efectiva, mas se pensarmos que as capelas mortuárias existiam apenas em Highgate Oeste (duas capelas, uma para anglicanos e outra para dissidentes), isso significava que, depois de terem sido realizadas as últimas cerimónias, os esquifes tinham de ser retirados de terreno consagrado e atravessar a estrada (terreno não consagrado) antes de voltar a entrar em terreno consagrado. Assim, teve de ser encontrada uma solução alternativa que permitisse manter o defunto em terreno consagrado, mas levando-o de Highgate Oeste para Highgate Este - e encontrou-se essa solução com  uma brilhante construção de engenharia: foi criado um elevador hidráulico na capela sul que fazia descer o caixão para uma câmara subterrânea que ligava a um pequeno túnel debaixo da estrada, com uma saída já dentro do lado Este do cemitério. 
Como curiosidade, na minha visita a Highgate Oeste, o guia era um engenheiro reformado, muito atencioso e que se dedicava a estudar mecanismos de engenharia utilizados na industria funerárias na época vitoriana, pelo que tive oportunidade de perguntar pelo túnel: fui informada que está parcialmente soterrado e por isso intransitável. Aparentemente, as peças do mecanismo hidráulico ainda estão no local.
Existem várias personalidades famosas enterradas no lado Este, mas a mais conhecida é talvez Karl Marx que, com um busto gigantesco, junto do percurso principal do cemitério, é impossível não ser visto.
Existem várias outras personalidades e monumentos dignos de destaque, mas refiro apenas outro bastante conhecido (ainda que ligeiramente mais difícil de encontrar): o piano aberto de Harry Thornton, um pianista que morreu de gripe em 1918, depois de ter passado a Primeira Grande Guerra a animar as tropas com a sua arte (infeliz e incompreensivelmente, a tampa do piano está ausente: descobri num livro que terá sido roubada).
Highgate Este
Já do lado Oeste existem vários monumentos conhecidos, especialmente com animais, como o leão adormecido no topo da tumba de George Wombwell (dono de um espectáculo itinerante com animais, entre os quais se incluía o leão Nero) ou o cão na campa de Thomas Sayers (um famoso lutador da época vitoriana). Também de destaque é o mausoléu de Julian Beer, com um gigantismo impressionante, construído perto do Círculo do Líbano e com uma das mais belas esculturas de Highgate no seu interior.
O desenho de Highgate Oeste obrigava a um trabalho de jardinagem cuidado e constante, sendo que a baixa da rentabilidade de um espaço já cheio e que não permitia novas vendas, acabou por limitar a manutenção e a vegetação começou a tomar conta do cemitério. Na sequência de vandalismo durante a primeira metade da década de setenta do século XX, Highgate Oeste foi fechado em 1975 e manteve-se assim durante décadas, entregue a si mesmo e aos vândalos que saltavam os muros e corriam entre as campas, no escuro. 
Existem até histórias e rumores sobre a existência de um Vampiro no cemitério de Highgate, mas deixaremos esse post para alturas do Halloween.
Entretanto, uma empresa de construção viu no espaço abandonado a possibilidade de criar um condomínio, mas a população local e muitos admiradores de Highgate e conhecedores da sua importância, reuniram-se e criaram uma associação de Amigos de Highgate que adquiriu o direito ao cemitério em 1981 com o objectivo de preservar, restaurar e manter o espaço, os monumentos e a flora.
Highgate Oeste
Assim, o cemitério de Highgate tem vindo a ser recuperado pela associação, graças a donativos e, especialmente, ao valor dos bilhetes para as visitas guiadas. Devido a estar ainda em recuperação e o cemitério ter vários locais perigosos, com campas abatidas, trilhos escondidos ou zonas escorregadias, as visitas a Highgate Oeste são sempre acompanhadas por guia. O mesmo não se passa com Highgate Este (a entrada é igualmente paga, mas o cemitério é de visita livre).
Para visitar o cemitério de Highgate Oeste é necessário marcar a visita com antecedência; as visitas estão normalmente cheias (visitei Highgate a meio de Março, uma altura turisticamente morta e as visitas estavam completas). 
Tive a sorte de ter um ambiente fantástico no dia da minha visita: nevou parte do percurso e depois o sol apareceu, criando sombras e iluminando os brilhantes flocos de neve no chão.
Para além disso, ainda que não fizesse parte do percurso da visita, o guia era extremamente acessível e acabou por nos mostrar o talhão da família Rossetti, onde foi enterrada Lizzie Siddal (esposa do pintor e poeta Pré-Raphaelita Dante Gabriel Rossetti), assim como toda a família Rossetti, com excepção do próprio Dante Gabriel Rossetti que foi enterrado, a seu pedido, em Birchington, no Kent.

Highgate Oeste - Talhão da Família Rossetti



19.5.14

Visita Noctura e Concerto nos Prazeres

Este ano a Noite dos Museus foi celebrada de forma muito especial - e inovadora - na cidade de Lisboa.
Olhando os cemitérios como sendo um museu a céu aberto - visão já há muito difundida noutras cidades do mundo, onde as visitas aos cemitérios fazem parte dos pacotes turísticos oferecidos pelas agências de viagens - Lisboa abriu no sábado à noite os majestosos portões do Cemitério dos Prazeres e recebeu os Lisboetas (e não só) de braços abertos, mostrando-lhes o melhor que tem.

Ainda que as visitas nocturnas em cemitérios portugueses não sejam comuns, esta não foi a primeira; essa honra cabe à cidade do Porto, que a 22 de Junho de 2012 preparou uma visita guiada no cemitério de Agramonte. 
Não sei números oficiais dessa visita, mas vi fotografias que mostram bastante gente. 
O facto que muitas vezes é ignorado - especialmente num país como o nosso, de enraizada matriz judaico-cristã - é que existe procura para este tipo de turismo - apelidado normalmente de necroturismo, em alguns casos de forma até pejorativa - e que é essencial dar-lhe resposta.

Nisso, como em outra coisas, os irlandeses têm muito para nos ensinar: no cemitério de Glasnevin, em Dublin, existe um loja no interior do cemitério cheia de livros, canecas e outras recordações do espaço, juntamente com um museu, um café com uma pequena esplanada e um restaurante do tipo cantina: tudo no interior do cemitério. À porta param autocarros de passeio cheios de turistas que entram, entusiasmados, na companhia de guias. 
É um facto que não estamos ainda preparados para este tipo de realidade, mas podemos começar a fazer o caminho, pelos pequenos passos, como os passeios e visitas guiadas.
Já há algum tempo que a Câmara Municipal de Lisboa tem vindo a aumentar a aposta na divulgação dos cemitérios lisboetas e a promover passeios temáticos muito interessantes e diversificados, mas na noite de 17 de Maio a aposta passou por um inédito passeio nocturno, seguido de um concerto de La Chanson Noire na capela.

Vários dias antes da visita já circulavam rumores - rapidamente confirmados - de que esta estaria esgotada, mas que ainda seria possível assistir ao concerto.
Efectivamente, por volta das 20:00 horas, já uma pequena multidão se estendia na ampla avenida principal que liga o portão à capela.

A primeira nota positiva que quero deixar é que é notório que a visita foi bem preparada:

  • À entrada foram distribuídos mapas com o percurso, acompanhados de um folheto com os pontos de paragem, incluindo uma breve descrição e imagem de cada um;
  • O Dr. Licínio Fidalgo, guia da visita, fez-se acompanhar de um megafone e um sinalizador luminoso que permitia encontrá-lo no escuro:
  • Existiam holofotes com geradores (que, pelo que percebi, foram gentilmente cedidos pelos Bombeiros de Lisboa) em todos os pontos de paragem, para garantir que as peças eram vistas pelos visitantes, depois de anoitecer;
  • Vários funcionários da CML estavam junto das encruzilhadas do percurso para assegurar que ninguém se perdia, seguindo um trilho não incluído no passeio;

Foi uma pena que a visita ao Jazigo Palmela tenha sido a primeira paragem do percurso. 
Uma visita a um espaço exíguo e com apenas com uma porta para o exterior (por onde se fazem as entradas e as saídas), quando se tem uma pequena multidão (sem ter números oficiais, diria que estariam perto de cem pessoa) não deve ser o arranque de uma visita deste género, pois torna-se demasiado demorada e dificulta a gestão do tempo. 
Ainda assim, felizmente, bastaram três grupos para que todos os visitantes conseguissem fazer a visita ao fabuloso jazigo; mas a questão principal é que o truque destas coisas é deixar o melhor para o fim: qualquer peça visitada depois do inigualável Jazido Palmela empalidece em comparação.

Teria sido arrepiante fazer o passeio na ordem inversa, não só porque teríamos mais luz para ver as peças que estão na rua, como chegaríamos ao Jazigo já com noite cerrada.

Voltando aos pontos positivos, a iluminação no interior do Jazigo Palmela foi conseguida com diversas velas acesas, o que criou um ambiente muito adequado e sombrio, impossível de conseguir numa visita diurna.

O percurso passou depois por vários pontos de destaque como o Dado Falso, a Bancada do Marceneiro, a estátua de homenagem a Sousa Viterbo e a de homenagem a Oliveira Martins. 
A meio, antes de começarmos a subida em direcção à capela, ainda tivemos a oportunidade de vislumbrar uma magnifica vista sobre o rio Tejo, Alcântara e a Ponte 25 de Abril, iluminadas pelos candeeiros de rua e os faróis dos carros que cruzam a ponte.

O passeio terminou já quase pelas 22:00 horas, dando assim início ao concerto de capela cheia.


Ainda que a acústica da capela não tenha sido a ideal, o concerto foi memorável.

O balanço da noite é muito positivo e penso que merece uma repetição em breve.
Garante-se público, claramente...

10.3.13

Cemitério Judaico de Wrocław

Na cidade polaca de Wrocław, afastado do centro histórico, fica um extraordinário cemitério do século XIX, conhecido como Cemitério Judaico Velho
Criado em 1856 na sequência do fecho do anterior cemitério judaico e descontinuado por volta de 1943, depois de dois anos praticamente sem inumações, este pequeno espaço situado na rua Ślężna atrai visitantes e estudiosos, com as suas construções antigas, marcadas pela passagem do tempo e das adversidades das guerras. 
Expandido diversas vezes - ainda no século XIX e depois no XX - coberto por trepadeiras e fetos, escondido sob frondosos castanheiros, visitá-lo em pelo Outono é uma experiência mágica irrepetível.
Apesar de, à semelhança da maioria dos cemitérios judaicos do leste da Europa, encontrarmos talhões densamente cobertos por masebhas (lápides) contendo textos em hebraico, compará-lo com outros bem conhecidos - como o cemitério judaico de Praga, por exemplo - é uma tarefa difícil.
Na realidade, o cemitério judaico velho de Wrocław é um espelho do movimento Haskalah, um movimento dos séculos XIX e XX que promove o iluminismo dos valores judaicos, de forma a alcançar uma mais fácil integração numa Europa cada vez mais secular. Nesse sentido, para além das lápides tradicionais, é possível encontrar diversas construções com linhas de criação mais seculares e simbologia variada. Esta abertura ao mundo não judaico começa por coincidir com a época romântica e o romantismo, com o seu revivalismo grego, romano, egípcio, marca também as construções cemiteriais. As colunas e vasos funerários que enchem os cemitério seculares passam a fazer parte das construções fúnebres deste cemitério judaico.
Para além do impacto na arquitectura e simbologia dos monumentos fúnebres, também os textos passam a conter palavras em latim e alemão.
Mas a diversidade não termina aqui: num dos recantos junto do muro encontra-se uma edificação com marca claramente mourisca, noutro local talhado em mármore negro, podemos encontrar um tabuleiro de xadrez encimando por uma das peças desse jogo, um cavalo. Numa outra zona, ainda são visíveis marcas de balas. 

Como não podia deixar de ser, sobre inúmeros monumentos, empilham-se pedrinhas e castanhas, deixadas reverentemente pelos visitantes.


PS: não posso deixar de agradecer à Weronika Murek, que me acompanhou na visita e me explicou várias tradições judaícas que eu desconhecia.

16.11.12

Mais do que palavras...



«Aos que na longa noite do fascismo foram portadores da chama da liberdade 
e pela liberdade morreram no campo de concentração do Tarrafal.»